Motivação: Quais são os Fatores Psicológicos que Guiam nosso Comportamento?

O ano era 2003, e o pesquisador Mauricio Delgado, da Universidade de Pittsburg, buscava entender as bases neurológicas envolvidas com diversos processos cognitivos.

Entre os seus experimentos, o pesquisador desenvolveu um jogo de computador, que poderia ser jogado dentro de uma máquina de ressonância magnética, e serviria para entender quais áreas do cérebro são ativadas quando estamos entediados.

No jogo, os participantes conseguiam visualizar uma tela, e eram informados que nela apareceriam aleatoriamente números de 1 a 9.  Como tarefa, os participantes deveriam adivinhar se o número que iria aparecer seria maior ou menor do que o número 5. Além disso, os participantes eram informados que as suas habilidades não estavam sendo testadas, e que poderiam desistir do jogo quando desejassem.

Entretanto, Delgado não revelou aos participantes que o jogo foi desenvolvido de forma que existisse um padrão para todas as partidas. Todos os participantes acertariam na primeira tentativa, errariam na segunda, acertariam na terceira, e assim por diante.

Na cabeça do pesquisador, isso seria o bastante para que os participantes se entediassem rapidamente, e desistissem de jogar. Contudo, ele ficou surpreso em descobrir que exatamente o oposto começou a acontecer. Alguns participantes passavam horas jogando. Um deles, ao final do experimento, até mesmo perguntou ao pesquisador se poderia jogar em casa.

Por diversos dias, Delgado ficou pensando no que o paciente interessado em levar o jogo para casa lhe disse. Por que razão o jogo o havia interessado tanto? Por que razão outros diversos participantes também tinham gostado daquele jogo?

 

As Bases da Motivação

Alguns anos depois, Delgado montou um novo experimento, buscando elucidar as questões que ainda não havia respondido com o experimento anterior.

Delgado montou um novo jogo de adivinhação, similar ao anterior, mas com uma mudança chave: durante metade do tempo do experimento, os participantes poderiam tentar adivinhar o número, e na outra metade das vezes o próprio computador tentava adivinhar por eles.

Conforme as pessoas começaram a jogar, o pesquisador observou mudanças interessantes nas regiões cerebrais influenciadas pelo jogo. Quando os participantes tentavam adivinhar o próximo número, seus cérebros acendiam em regiões vinculadas a antecipação e entusiasmo. Entretanto, durante as tentativas em que o computador escolhia por eles, essas regiões se silenciavam e eles se tornavam desinteressados no exercício.

Além disso, quando o pesquisador perguntava aos participantes quais haviam sido suas percepções do jogo, eles informavam que haviam gostado apenas da parte em que estavam no controle de suas escolhas, nitidamente com um maior entusiasmo, preocupados se estavam ganhando ou perdendo. Contudo, quando era a vez do computador, diziam que se sentiam entediados, e querendo que o experimento acabasse logo.

Para Delgado, isso não fazia tanto sentido, já que as chances de ganhar ou perder eram exatamente as mesmas. Permitir às pessoas que escolham, ou deixar que esperem o computador escolher, não deveria fazer a diferença na experiência do jogo. Entretanto, de alguma forma, dar poder de escolha para as pessoas transformava completamente o jogo. Ao invés de ser apenas uma tarefa, aquilo se transformava em um desafio.

Em suma, os participantes se motivavam, pois, acreditavam que estavam no controle da situação, e por isso podiam tomar melhores decisões no futuro.

 

O Sentimento de Controle

Nas últimas décadas, diversos livros de autoajuda e liderança têm colocado motivação como algo estático, que faz parte da nossa personalidade, e que é feito apenas como um cálculo subconsciente que compara esforços e recompensas.

Entretanto, cientistas vêm cada vez mais provando que motivação é algo mais complexo que isso. Motivação é algo que pode ser aprendido, de maneira similar a ler e escrever.

De acordo com a ciência, podemos nos tornar melhores na arte de nos auto motivar se praticarmos isso da maneira correta.

Quer saber mais? Então leia   Savant: A Mais Importante Lição sobre Como Transformar a sua Vida

O truque, de acordo com as pesquisas, é entender que como pré-requisito para se motivar, precisamos acreditar que temos autoridade sobre as nossas ações e temos controle sobre o nosso destino.

Como primeiro passo, portanto, precisamos entender mais sobre nosso “Lócus de Controle”.

 

Lócus de Controle

O corpo de fuzileiros navais norte-americano possui um histórico de ser a primeira força a chegar no campo de batalha e a última a sair. Eles são famosos por sua improvisação e independência, e pensamento orientado a ação.

Entretanto, há algumas décadas, os comandantes têm encontrado grande dificuldade com novos recrutas, que chegam ao acampamento com falta de automotivação e auto direção.

Recrutas jovens esperam até que alguém lhes diga o que devem fazer, não se sentem livres, e quando tomam alguma atitude, colocam apenas o esforço mínimo para completar a tarefa. Como o General Charles C. Krulak coloca ao descrever essa nova geração de fuzileiros: “É como trabalhar com um monte de meias molhadas”.

Na tentativa de descobrir o que poderia fazer para melhorar o treinamento dos fuzileiros, Krulak mergulhou de cabeça nas pesquisas de automotivação.

Ele encontrou um estudo realizado pelos próprios fuzileiros, que concluiu que os fuzileiros navais mais bem-sucedidos são aqueles que possuem um forte lócus de controle interno, ou seja, acreditam que podem influenciar seu destino através das decisões que tomam.

 

Lócus de Controle Interno vs. Lócus de Controle Externo

Bom, para simplificar a explicação, pense que pessoas com um lócus de controle externo sentem-se como se que não possuissem poder sobre sua vida. Elas culpam os outros ou as circunstâncias pelo seu destino. “Se eu não tivesse filhos, teria tempo para treinar” ou “Se não fosse meu gerente, já teria sido promovido”.

Em suma, sentem-se como se a vida fosse controlada por circunstância externas, e por isso não veem muito sentido em trabalhar sobre suas metas e objetivos. Seu único recurso é esperar e torcer para que as circunstâncias mudem.

Já um indivíduo com um lócus de controle interno se vê como um protagonista, e não como alguém que está à mercê do que acontece. Ele se vê como um ser autônomo e acredita em sua auto eficácia – a sua capacidade de fazer as coisas acontecerem.

Além disso, ele vê uma alta correlação entre suas ações pessoais, o que faz com que se mova de onde está agora para onde quer estar. Por esta razão, obviamente, ele é muito mais motivado a agir e entrar em ação.

Outras pesquisas científicas, nos campos da psicologia cognitiva e da neurologia apoiam essa conexão entre um senso de controle e motivação intrínseca.  Por exemplo, psicólogos da Universidade de Columbia descobriram que quando as pessoas acreditam que estão no controle de suas vidas, tendem a trabalhar mais e empenhar-se mais. Eles ganham uma quantia maior de dinheiro do que os seus colegas e até mesmo vivem mais tempo do que eles.

 

O Treinamento dos Fuzileiros Navais

Para Krulak, estudos como esses pareceram como a chave para ensinar automotivação aos novos recrutas.

A partir deles, o comandante redesenhou o treinamento das forças armadas para que os recrutas tenham mais controle sob as suas escolhas, e assim se tornem mais motivados. A ideia hoje é que ao ensinar os recrutas a tomarem controle de algumas situações, eles aprendam a gostar desse sentimento.

Segundo o comandante:

“Nós nunca falamos para alguém que ele é um líder natural. Ser um líder natural significa algo fora do seu controle. Ao invés disso, ensinamos que liderança é aprendida, que é um produto do seu esforço”.

 

O Sentimento de Desafio

Bom, até aqui discutimos que grande parte de nossa motivação se origina em um sentimento de controle. Entretanto, se você realmente quer aprender como permanecer motivado para alcançar suas metas, então você precisará entender de uma segunda peça do quebra-cabeça da motivação. Ela está relacionada a encontrarmos os desafios certos.

Quer saber mais? Então leia   Como voltar a ser produtivo quando estamos estagnados

 

Encontrando Desafios

Seres humanos adoram desafios, mas só quando esses estão em uma zona ótima de dificuldade.

Por exemplo, imagine que você está jogando tênis. Se você estiver jogando com uma criança de quatro anos, você rapidamente vai ficar entediado. A partida fica muito fácil, e você rapidamente perde o interesse.

Em contraste, imagine que você está jogando uma partida contra um profissional, como Roger Federer ou Serena Willians, e você se encontra desmotivado por um motivo completamente diferente. Agora, a partida é muito difícil, e você facilmente desiste.

Compare então essas duas situações com uma terceira, onde você está enfrentando alguém em um nível similar a você. O jogo progride e você faz um ponto aqui, erra outro ali, e percebe que realmente tem chances de vencer a partida.

Em uma situação como essa, seu foco aumenta, as distrações somem, e você se encontra totalmente comprometido com o jogo. O desafio é real e, embora a vitória não seja garantida, você sente que ela é possível.

Situações como essa, em que encontramos um desafio com um nível de dificuldade ótimo para nossas condições, são extremamente motivadoras, tornando-se uma grande fonte de felicidade. De acordo com o psicólogo Gilbert Brim, “Uma das fontes mais importantes de felicidade para seres humanos é trabalhar em tarefas com um nível adequado de dificuldade, nem muito difíceis, nem muito fáceis”.

 

Motivação, Desafios, e Estado de Fluxo

Essa mistura entre felicidade de alta performance é muitas vezes chamada de “Estado de Fluxo”. O fluxo é o estado mental que você experimenta quando está completamente focado em uma tarefa, e o resto do mundo parece sumir. Você perde a noção do tempo, cria um vínculo gigantesco entre você e o trabalho que está fazendo, e nada parece conseguir te parar.

Artigo Relacionado: Estado de Fluxo: O Guia Científico de Como Atingir e Permanecer em Alta Performance

Para alcançar esse estado de alta performance, além de trabalhar em desafios que estão no nível adequado de dificuldade, você também precisará medir de alguma forma o seu progresso.

Visualizar o seu progresso no momento que ele está acontecendo é incrivelmente motivador. Não é à toa que diversas metodologias de Produtividade se dedicam a revisar o seu progresso semanalmente, ou até mesmo medi-lo dia a dia, como no caso do método “Não Quebre a Corrente”.

Independentemente da maneira que você resolva realizar essa medição, é importante que você entenda que seu cérebro precisa visualizar o progresso para se manter motivado. Nós precisamos ser capazes de enxergar as nossas vitórias.

 

Os Dois Passos da Motivação

Se quisermos quebrar o mistério de como nos motivamos, poderíamos apenas resumir os pontos principais em dois, sendo eles:

  1. Treine constantemente a sua mente para procurar por alternativas em cada situação da sua vida. Perceba que através da capacidade de fazer escolhas, você adquire o controle e o poder para alterar completamente seu destino.
  2. Procure encontrar tarefas que estejam no nível de dificuldade adequado para você no momento. Meça seu progresso, e fique atento aos feedbacks que está recebendo.

 

Considerações finais

Querer mudar de vida é fácil, mas permanecer motivado é uma história completamente diferente. Ainda assim, se você realmente busca por motivação contínua, acredite no seu potencial, escolha um desafio que esteja no seu nível de dificuldade, meça seu progresso e repita sempre o processo.

Se de alguma forma esse texto fez você refletir sobre sua motivação, uma das melhores maneiras que você tem de me motivar para continuar escrevendo é deixando seu feedback logo abaixo nos comentários.

Eu vou adorar saber sua opinião do assunto!

About Leonardo Puchetti Polak

Especialista em Produtividade Pessoal, apaixonado por alta performance, tecnologia e neurociência.

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4 Respostas para “Motivação: Quais são os Fatores Psicológicos que Guiam nosso Comportamento?

  • Valéria Miranda
    9 meses ago

    Esse texto chegou na hora exata (Processo de construção de TCC); e acrescentou e confirmou vários outros pensamentos. (Metodologias para aulas).
    Excelente obra. Parabéns!

    • Olá Valéria,
      Fico muito contente que tenha gostado! =)
      Caso precise de mais informações, recomendo o livro “Mais rápido e Melhor” do Charles Duhigg. Eu utilizei o livro como referência para esse artigo, e nele você pode encontrar até mais informações sobre motivação.

      Abraço,
      Leonardo

  • Erica moreira
    10 meses ago

    Excelente texto, Leonardo. Na verdade, gosto bastante dos seus textos. Por favor, continue escrevendo.

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