Estado de Fluxo: O Guia Científico de Como Atingir e Permanecer em Alta Performance

Você já deve ter escutado alguma vez que utilizamos apenas 10 ou 20% do nosso cérebro. Provavelmente, também já ouviu que se descobríssemos como alavancar esse número, atingiríamos sucesso em todas as áreas das nossas vidas.

Basicamente, este é o modelo geral para alta performance que muitas pessoas ainda pensam hoje em dia. Até mesmo filmes foram feitos hipotetizando como seria a existência de pílulas capazes de aumentar o poder do cérebro. Aprenderíamos diversas línguas, resolveríamos qualquer problema, não teríamos limite para nossa criatividade, aprenderíamos facilmente matemática, economia, história e seríamos altamente produtivos.

Mas eu lhe pergunto, o que acontece se estamos hipotetizando de maneira errada? É possível pensarmos no sentido inverso? É possível que a diminuição da atividade cerebral em algumas regiões seja responsável pelo aumento de performance?

Bom, é isso que diversas pesquisas nos últimos anos vêm mostrando. Esses estudos apontam que a desativação de algumas regiões do cérebro pode ser responsável por atingirmos alta performance em diversas áreas da nossa vida. Esse processo ocorre pelo que chamamos de “flow state”, ou “Estado de Fluxo”.

Para saber mais, continue aqui comigo neste artigo, e eu vou te explicar tudo que você precisa saber sobre o tema. Se preferir, você pode clicar nos links abaixo para ir direto a uma seção particular do artigo que te interessa, ou pode simplesmente continuar a leitura para ver o artigo completo.

 

I. Introdução

A Arte do Arco e Flecha

Em 1924, o alemão Eugen Herrigel se mudou para o Japão, afim de se tornar professor na Universidade de Tohonu. Durante esse período, ele recebeu a oferta de praticar a arte do arco e flecha, praticada popularmente pelos mestres Zen-budistas, e ensinada na época pelo lendário mestre Awa Kenzo.

Durante os primeiros quatro anos de prática, Kenzo apenas permitiu que Herrigel atirasse em alvos que estavam a no máximo 2 metros de distância.  O mestre fazia isso pois acreditava que os iniciantes devem primeiramente dominar os fundamentos básicos do arco e flecha antes de aprenderem a atirar a longa distância.

Quando finalmente o mestre permitiu que Herrigel atirasse em alvos mais afastados, o seu desempenho foi terrível. As flechas saiam de curso, e ele se tornava mais desencorajado a cada tentativa. Herrigel estava convencido de que o problema estava em sua mira, mesmo que Kenzo dissesse o contrário.

Para o mestre, o que atrapalhava Herrigel era a sua grande obsessão com a meta final, e não com a sua abordagem corporal. “Ver o alvo não é o suficiente”, dizia o mestre, “isso nada decide ou explica, pois eu o vejo como se não estivesse vendo”.

Frustrado com essa explicação, Herrigel fez a seguinte observação: “Se é assim, nada impede que o senhor acerte o alvo com os olhos vendados”. Kenzo então pausou por um momento, e então disse “Eu o espero a noite”.

 

Dois Tiros às Cegas

À noite, ambos retornaram ao campo de prática, afim de testar as habilidades do mestre. Kenzo pediu que Herrigel fixasse uma haste de incenso, longa e delgada, na areia diante do alvo. O local não estava iluminado pelas lâmpadas, sendo o incenso o único indicativo de onde se encontravam os contornos do alvo.

O mestre então colocou-se em postura de tiro, puxou a corda do arco, e soltou a primeira flecha na escuridão do pátio. Em seguida, o mestre soltou imediatamente uma segunda flecha.

Mais tarde, Herrigel escreveria em seu livro: “Pelo ruído do impacto, percebi que a primeira flecha atingira o alvo, o que também ocorreu com o segundo tiro. Quando acendi a lâmpada que iluminava o alvo constatei, estupefato, que não só a primeira flecha acertara o centro do alvo, como a segunda também o havia atingido, tão rente à primeira, que lhe cortara um pedaço, no sentido do comprimento”.

Estado de Fluxo - Zanshin - Awa Kenzo

Mestre Awa Kenzo (1880-1939). Fotógrafo desconhecido. Fonte: http://www.archerytoronto.ca/

 

A Importância do Zanshin

Ao longo dos anos, diversos grandes mestres dos esportes e das artes marciais já nos falaram sobre a importância de focarmos nos fundamentos básicos de cada prática.

Artigo Relacionado: A Importância dos Fundamentos: A Importância de Trabalharmos Mesmo Quando Estamos Entediados

No arco e flecha, esses fundamentos envolvem, por exemplo, a maneira com que você respira durante o tiro, o lugar onde você posiciona seus pés e como você segura o arco.

No caso do mestre Awa Kenzo, ele estava tão atento aos fundamentos que era capaz de replicar exatamente o conjunto de movimentos internos necessários para atingir o alvo, mesmo sem vê-lo com precisão. Essa consciência completa sobre o corpo e a mente é popularmente conhecida nas artes marciais japonesas como “Zanshin”.

Zanshin significa “a mente sem lembretes”. Em outras palavras, a mente completamente focada e fixada na tarefa que está a sua frente. Estar em Zanshin significa possuir total consciência do seu corpo, mente, e dos seus arredores, e com total apresso pela sua atividade.

II. O Que É Estado de Fluxo?

Zanshin e o Estado de Fluxo

Embora seja comumente aplicado apenas dentro das artes marciais japonesas, o estado de Zanshin já foi observado nas mais variadas culturas, com as mais variadas aplicações, utilizando diferentes nomes.

Por exemplo, no yoga, ele é muito mais conhecido pelo nome de Moksha, e descreve um estado de total libertação e consciência. No ramo científico, contudo, conhecemos esse estado pelo nome de “flow state”, ou o também chamado “Estado de Fluxo”.

Segundo a definição clássica, o Estado de Fluxo é “o estado mental de operação em que a pessoa que realiza uma tarefa está totalmente imersa em um sentimento de foco energizado, engajamento total, e apreciação pelo processo da atividade.  A marca do fluxo é um sentimento de alegria espontânea, até mesmo êxtase, enquanto executa uma tarefa. Fluxo também é descrito como o foco profundo em nada além da atividade – nem mesmo em si, ou nas suas emoções”.

Esse estado foi descrito pela primeira vez pelo pesquisador húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, enquanto estudava os diversos incentivos que afetam a felicidade humana.

 

A Descoberta do Estado de Fluxo

Na década de 70, o pesquisador Mihaly Csikszentmihalyi estava particularmente interessado em estudar os incentivos capazes de impactar nosso índice de felicidade ao longo do tempo.

Dessa forma, Csikszentmihalyi iniciou suas pesquisas com um dos maiores estudos já realizados no campo da psicologia. Ele literalmente viajou o mundo perguntando às pessoas sobre quais os melhores momentos em suas vidas, aqueles que fizeram o seu melhor.

Primeiramente, ele começou com pessoas criativas das mais diversas áreas do conhecimento humano: cirurgiões, músicos, dançarinos, jogadores de xadrez, montanhistas, etc. Ele então percebeu que para essas pessoas, o ato de criar parece por vezes mais importante que a finalização do trabalho. Ele ficou fascinado pelo estado de “fluidez” que essas pessoas imergiam enquanto criavam, com foco intenso e um exponencial engajamento criativo.

Mais tarde, Csikszentmihalyi seguiu estudando outras pessoas mais comuns, como um fazendeiro italiano, um pastor de ovelhas em Navajo, uma idosa coreana, um trabalhador na linha de montagem em Chicago, um membro de uma gangue japonesa, e por aí a lista segue.

Não importa para quem no mundo o pesquisador perguntava, a única comunalidade entre todas as pessoas é esse estado de “fluidez” que entravam quando estavam desempenhando o seu melhor.

A esse estado, portanto, Csikszentmihalyi chamou de Estado de Fluxo.

 

De Volta ao Laboratório

Para comprovar suas observações preliminares, Csikszentmihalyi voltou ao laboratório, afim de comprovar não só a existência do Estado de Fluxo, mas também quais eram os seus impactos sobre a felicidade das pessoas.

Contudo, quando ele iniciou seus estudos, ainda não haviam sido desenvolvidas as metodologias clássicas que hoje utilizamos para o estudo da felicidade ou da alta performance. Csikszentmihalyi, portanto, precisou testar diferentes abordagens para encontrar quais circunstâncias promovem o Estado de Fluxo.

Em uma dessas técnicas, por exemplo, era solicitado para que os participantes das pesquisas preenchessem uma série de perguntas sobre o que estavam fazendo ao longo do dia, e como estavam se sentindo ao realizar essas tarefas.

Os participantes deveriam responder às perguntas todas as vezes que um sinal (beep) fornecido a eles tocasse. Esses sinais estavam configurados para tocar em momentos aleatórios do dia, sendo que o intuito do estudo era analisar quais atividades traziam maior satisfação aos participantes.

 

Estado de Fluxo e Felicidade

Utilizando essa abordagem, adolescentes foram divididos em dois grupos (alto-fluxo e baixo-fluxo), de acordo com as atividades criativas que exerciam durante o dia.

Dessa forma, participantes que desempenhavam atividades como a prática de hobbies (música e arte), esportes, ou fazer o dever de casa (matemática e ciências) foram colocados no grupo “alto-fluxo”.  Já os participantes que não desempenhavam tanto essas funções foram colocados no grupo “baixo-fluxo”.

Csikszentmihalyi mostrou que os participantes que pertenciam ao grupo “alto-fluxo” possuíam maior auto estima e maiores níveis de engajamento quando comparados ao grupo controle. Além disso, uma análise mais prolongada desses participantes indicou que eles eram mais bem-sucedidos na escola, mais felizes a longo prazo, e desenvolviam melhores relacionamentos e prospecção de carreira.

Contudo, de maneira interessante, o grupo “alto-fluxo” reportou ter menores níveis de diversão que o grupo controle, vendo atividades como assistir televisão, jogar vídeo game e socializar, como atividades mais recompensadoras. O grupo “alto-fluxo” possuía, portanto, a visão distorcida de que atividades não vinculadas ao fluxo poderiam deixá-los mais felizes.

Esse efeito é facilmente compreendido por todos nós. O que você prefere: passar 4 horas estudando ou 4 horas assistindo televisão? Para a maior parte das pessoas, a televisão ganha 100% das vezes. Dessa forma, é impossível não se perguntar “Por que preferimos atividades que não nos levam ao Estado de Fluxo, mesmo quando elas não nos deixam mais felizes? ”

Para responder à essa pergunta, primeiramente precisamos entender alguns dos fundamentos do Estado de Fluxo.

III. Por que entrar em Estado de Fluxo?

Como Você se Sente em Estado de Fluxo?

Você provavelmente já passou por uma situação parecida: quando senta para escrever um plano de negócios, um relatório importante, ou para estudar algum assunto relevante, e horas passam como se fossem minutos. A sensação é como se o tempo acelerasse a uma velocidade incrível. Ou talvez, já teve a experiência de presenciar um acidente de trânsito e ver toda a cena como se estivesse passando em câmera lenta.

Se você já viveu alguma dessas experiências, você já conhece o que chamamos de “Estado de Fluxo”. Quando entramos em fluxo, nossa visão de mundo se altera. Nós perdemos a noção do tempo, criamos um vínculo forte entre nós e o trabalho que estamos fazendo, e nada parecer conseguir nos parar.

Em Estado de Fluxo, a maneira como percebemos o tempo se altera, pois, as regiões do cérebro responsáveis por reconhecimento e percepção do tempo são “desligadas”, e passado, presente e futuro parecem se fundir em um só.

Além disso, em fluxo, a região do cérebro responsável por fazermos autocríticas ou autojulgamentos também possui atividade reduzida, aumentando assim nossa criatividade e nossa capacidade de assumir maiores riscos. Como consequência disso, temos uma experiência fenomenal.

Isso sem falar das outras características e benefícios também associadas ao Estado de Fluxo.

Os 5 Benefícios do Estado de Fluxo

Dentre as outras características e benefícios que temos ao entrar em Estado de Fluxo encontramos:

1. Aumento da autoestima

Desde os anos 80, diversos estudos mostraram que o melhor preditor de satisfação com a própria vida não é a satisfação com a família, amizades ou com renda, mas a satisfação consigo mesmo. As pessoas que tendem a gostar e aceitar a si mesmas tendem a se sentirem melhor com a vida de maneira geral.

Dessa forma, o Estado de Fluxo altera a visão que possuímos daquilo que fazemos e do que somos de maneira positiva e satisfatória.

2. Elevação da Motivação

Durante o Estado de Fluxo, liberamos enormes quantidades de neurotransmissores (moléculas responsáveis pela comunicação de neurônios com outras células), os quais melhoram amplamente nossa performance.

Essas moléculas são capazes de fazer com que processemos informações mais rapidamente e profundamente, fornecendo um sentimento fenomenal de invencibilidade, chegando até mesmo a ser um sentimento viciante. Essa situação nos leva a querer constantemente reentrar em Estado de Fluxo, sendo, portanto, um poderoso motivador intrínseco.

Além disso, o Estado de Fluxo aumenta nossa percepção de controle sobre uma determinada situação ou atividade, sendo que diversos estudos já foram feitos para mostrar que essa percepção afeta profundamente a nossa motivação para trabalhar.

Artigo Relacionado: Motivação: Quais São os Fatores Psicológicos Que Guiam Nosso Comportamento?

3. Ajuda a Saborear o Momento Presente

Ao entrarmos em Estado de Fluxo, focamos toda a nossa atenção para o momento presente, fazendo com que deixemos de ficar ansiosos com eventos passados ou futuros, e possamos focar nos sentimentos positivos que estamos experimentando no agora.

Portanto, o Estado de Fluxo aumenta nossa felicidade trazendo nossa mente para o presente.

4. Criatividade Alavancada

Quando entramos em Estado de Fluxo, conseguimos processar informações mais rapidamente e temos acesso a memórias mais antigas, sendo esses os blocos que utilizamos para construção de novas ideias.

Artigo Relacionado: Como Ideias Inovadoras se Originam: Por Que Velhas Ideias São Suas Armas Secretas

A partir disso, conseguimos detectar melhor alguns padrões que antes não percebíamos, e melhoramos nossa capacidade de ligar tanto ideias que estão vinculadas a um mesmo tema, como ideias de temas completamente distintos.

Outra maneira que o Estado de Fluxo influencia a criatividade é diminuindo as ondas cerebrais para tamanhos mais próximos ao atingidos quando estamos dormindo e sonhando. Esses comprimentos de onda são necessários para que tenhamos momentos de insights, onde conseguimos resolver problemas que há tempos estávamos trabalhando.

De acordo com os estudos feitos pelo pesquisador Steven Kotler, sua criatividade chega a aumentar de 500 a 700% quando entra em Estado de Fluxo.

5. Expansão do Aprendizado

Por último, outra grande categoria onde o Estado de Fluxo atua é sobre o nosso aprendizado.

Para simplificar, nós aprendemos e retemos mais informações quando temos a liberação de uma grande quantidade de neurotransmissores simultaneamente no nosso cérebro, seja por motivos físicos ou emocionais. É como se nosso cérebro dissesse “Já que esse momento despertou grandes emoções (sejam boas ou ruins), ele deve ser útil de alguma forma”.

Durante o Estado de Fluxo, grande quantidade de neurotransmissores são liberados continuamente, contribuindo por si só para melhorar o aprendizado.

IV. Como Entrar em Estado de Fluxo?

As 4 fases do Estado de Fluxo

Uma vez que você já entendido o que é o Estado de Fluxo, e quais são os seus benefícios, chegou a hora de explorarmos mais a fundo como podemos entrar nesse estado.

Nos últimos 25 anos, o advento de tecnologias que conseguem visualizar e mapear o cérebro permitiram grandes avanços no estudo de como atingimos alta performance.

Dessa forma, um desses avanços está no entendimento de quatro fases distintas, as quais formam um ciclo, que são necessárias para atingir consistentemente o Estado de Fluxo. Todas estão ilustradas e descritas logo abaixo.

Quer saber mais? Então leia   Modelo SCARF: 5 Princípios-Chave para Ativar sua Motivação no Trabalho

Estado de Fluxo - 4 fases

Fase 1 – Fase de Luta

A primeira fase consiste em carregar o cérebro com as informações necessárias para execução da determinada tarefa. Por exemplo, caso esteja escrevendo um livro, a fase de pesquisa e entrevistas é onde saturamos nossa mente com as informações necessárias para o trabalho.

De maneira geral, essa fase é desagradável. Isso significa que mesmo sendo um dos estados mais prazerosos que podemos experimentar, o Estado de Fluxo se inicia com uma fase enfadonha e desencorajadora.

Fase 2 – Fase de Libertação

A segunda fase é onde liberamos nossa mente do problema. Isso é, nós paramos de pensar sobre o que precisamos fazer.

Não me entenda mal, nós sabemos o que precisa ser feito, e já temos todos os recursos necessários para um bom desempenho. Ainda assim, precisamos fornecer um tempo para nossa cabeça começar a fazer sentido de todas essas informações.

Algumas das melhores formas de liberação são sair para longas caminhadas, trabalhar no jardim ou no quintal de casa, ou deitar na grama e ficar olhando as nuvens. Mas atenção, alguns comportamentos, como assistir televisão, embora liberem sua cabeça do problema, induzem ondas cerebrais incompatíveis com o Estado de Fluxo.

Portanto, evite permanecer na frente do televisor caso queira espairecer a cabeça. Embora possa parecer um tempo improdutivo, é nessa fase que você está produzindo todos os componentes biológicos necessários para entrar em fluxo.

Fase 3 – Fase de Fluxo

A terceira fase corresponde ao que discutimos até agora. É nessa fase que temos a sensação de que o tempo parou, e na qual fazemos em horas o trabalho que poderíamos demorar dias para terminar.

Essa fase é extremamente prazerosa e produtiva, sendo esse o motivo de focarmos tanto nela.

Fase 4 – Fase de Recuperação 

Assim como em qualquer evento biológico, a tendência natural do nosso corpo é normalizar e atingir homeostase.

Por esse motivo, a quarta e última fase também é vista como desagradável, pois nela reduzimos novamente nossa performance para níveis medianos. Ainda assim, essa fase é necessária para recuperarmos as energias e podermos voltar com força total para o próximo ciclo.

Nessa fase, busque relaxar e não se estressar com o fato de não estar rendendo tanto. Caso você comece a se estressar, seus níveis de cortisol começarão a aumentar, e altos níveis de cortisol levam a bloqueios no seu aprendizado. Além disso, o aumento de estresse nessa fase faz com que você não esteja disposto a passar novamente pelos desconfortos da Fase 1, quebrando assim o ciclo.

 

Porque preferimos atividades não vinculadas ao fluxo?

Com esse conjunto de dados, eu penso que já podemos responder à pergunta feita no início desse artigo: “Por que preferimos atividades que não nos levam ao Estado de Fluxo, mesmo quando elas não nos deixam mais felizes? ”

Ao meu ver, existem 2 grandes motivos pelos quais preferimos desempenhar atividades que não nos levam ao Estado de Fluxo. São elas:

1. Valorizamos mais o Presente do que o Futuro

No artigo “Força de Vontade: o que fazer para evitar péssimas decisões”, eu comentei a tendência natural que temos para valorizar mais os benefícios que acontecem no presente, quando comparados aos benefícios que só teremos no futuro. O mesmo ocorre para o Estado de Fluxo!

Por exemplo, como programas de televisão são montados para nos fornecer recompensas imediatas, sem esforço, temos a tendência de escolher o que é mais prazeroso para o agora, procrastinando fazer aquilo que nos traria mais felicidade a longo prazo. Isso é mesmo que dizer que inconscientemente, nosso cérebro quase sempre prefere aquilo é mais fácil, e que chega sem esforço aos nossos olhos e ouvidos.

2. Atividade Desprazerosa no Início:

O segundo motivo que nos leva a muitas vezes evitar o Estado de Fluxo está vinculado às 4 fases explicadas acima.

Você percebeu que das 4 fases citadas, duas delas são desprazerosas? Pois então, as fases inicial e final do Estado de Fluxo não são tão bem-vistas pela maior parte das pessoas, pois requerem um grande esforço, sem ter a certeza de que um bom trabalho será feito.

Esse também é o motivo que levou Csikszentmihalyi a passar grande parte do seu tempo estudando e entendendo quais são os gatilhos mentais que disparam o Estado de Fluxo.

 

Componentes Essenciais do Estado de Fluxo – Individual

Como podemos facilitar a entrada e a saída do Estado de Fluxo? Como podemos melhorar a probabilidade de entrarmos em fluxo diariamente?

Por muito tempo, essas perguntas fizeram parte da gama de questionamentos que diversos pesquisadores possuíam a respeito do Estado de Fluxo. Afinal de contas, se durante esse estado conseguimos expandir radicalmente nosso foco e criatividade, quem não gostaria de entrar nele rotineiramente?

Em 2014, o pesquisador Steven Kotler trouxe-nos grande parte da resposta em seu livro “Super-Humanos: Como os Atletas Radicais Redefinem os Limites do Possível”. No livro, o autor explica em detalhes os resultados que obteve ao estudar o Estado de Fluxo e atletas de alto nível, e elucida 17 gatilhos poderosos para entrarmos em fluxo.

Dentre os gatilhos, eu selecionei apenas aqueles que fazem mais sentido no nosso cotidiano, já que como dito acima, Kotler cria a maior parte dos seus argumentos sobre os estudos que fez com atletas de alta performance.

Embora possam parecer muitos, os gatilhos se sobrepõe em muitos pontos, funcionando como extensões uns dos outros, de forma que não é tão complicado alcançá-los. São eles:

 Metas Claras e de Curto Prazo

Nosso primeiro gatilho nos mostra onde devemos colocar nossa atenção. Isso porque ao estipularmos metas claras e de curto prazo, nossa mente não precisa vaguear em busca do que fazer, e sobre qual a próxima ação a ser tomada, afinal de contas isso ela já sabe.

Dessa forma, nossa concentração e motivação naturalmente aumentam, facilitando entrarmos em fluxo.

Além disso, para que nossa concentração se mantenha, são importantes outros 3 componentes:

·         Grandes blocos de tempo

Para que você consiga manter a concentração, é primeiro necessário garantir que você tenha o tempo necessário para progredir sobre determinada tarefa. Caso tenha 5 minutos até o próximo compromisso, busque fazer tarefas que sejam compatíveis com esse pequeno intervalo de tempo.

·         Número Baixo de Interrupções

Todas as vezes que somos interrompidos, nossa linha de raciocínio se perde, e precisamos de mais tempo para retomar a tarefa que estávamos fazendo. De acordo com a pesquisadora Gloria Mark, demoramos em média 23 minutos para retomarmos a tarefa após sermos interrompidos.

·         Fim do Multitarefa

Tentar realizar diversas tarefas ao mesmo tempo é o mesmo que criar interrupções constantemente na sua linha de raciocínio. Da mesma maneira que com outras interrupções, nosso cérebro precisa de tempo até voltar a operar com facilidade sobre a tarefa inicial.

Dessa forma, caso esteja escrevendo um grande relatório, busque colocar como meta escrever 1 ou 2 tópicos nessa semana. Reserve horários específicos nos quais deseja trabalhar, e deixe que outras pessoas saibam que você não quer ser interrompido. Assim, você aumenta as chances de atingir alta performance.

(Para saber mais sobre como estabelecer metas, acesse a página “Estabelecendo Metas de Sucesso”).

Feedback Imediato

Outra maneira de manter a concentração, o feedback imediato é basicamente uma extensão das suas metas. Se suas metas te dizem o que fazer, a presença de feedback constante te diz como fazer. Se a todo momento você tem a sua frente o que precisa ser melhorado, sua mente não vagueará em busca de pistas que cumpram esse mesmo objetivo.

Além disso, feedback imediato é uma ótima forma de manter nas alturas os níveis de motivação. Ao conseguirmos responder diretamente ao que precisa ser otimizado, desenvolvemos um sentimento de evolução, fazendo com que a tarefa se torne intrinsecamente recompensadora. Essas pequenas recompensas, que decorrem da evolução do projeto, são capazes de te motivar até a finalização da tarefa.

Dessa forma, caso esteja em uma negociação de contrato, por exemplo, é importante que você consiga visualizar que os pontos discutidos estão realmente impactando na criação do contrato, e que as discussões não estão fugindo ao escopo da reunião.

Tarefas Precisam Ser Desafiadoras, Mas Não Impossíveis

Gráfico Estado de Fluxo

No gráfico acima, é importante notar que o Estado de Fluxo só existe quando temos um alto nível de desafio, mas que é compatível com nosso nível de perícia na execução da tarefa. Caso nosso nível de perícia seja muito maior que o desafio, ficaremos relaxados. Caso o nível de desafio seja muito superior ao de perícia, ficaremos ansiosos. Ambos esses sentimentos são incompatíveis com o Estado de Fluxo.

Para entrar em fluxo, a tarefa precisa ser desafiante a um nível que ainda bata com suas habilidades para finalizá-la. Por exemplo, caso esteja na negociação de contrato exemplificada no item anterior, é necessário que seus níveis de persuasão sejam compatíveis com a resistência que o cliente mostra na compra. Caso os níveis de resistência sejam muito altos, você começará a se sentir ansioso e não conseguirá entrar em Estado de Fluxo.

Além disso, tão importante quanto termos um nível de perícia compatível com a tarefa, é acreditarmos no nosso potencial.

Muitas vezes olhamos grandes empresários, ou bons investidores em revistas, artigos ou televisão, e pensamos “Se eu tivesse metade do talento desse cara, faria rios de dinheiro”. Essa é justamente a mentalidade que trabalhará contra você quando está desenvolvendo uma habilidade e está procurando entrar em fluxo.

Para entrar em fluxo, você precisa acreditar que seus esforços valem a pena e que você possui um grande potencial.

Senso de Controle

Como uma extensão do feedback imediato, a manutenção de um sentimento de controle sobre a situação ou tarefa é fundamental. Caso seu feedback indique que você não possui mais o controle da situação, o que é o mesmo que indicar que seu nível de desafio superou o seu nível de perícia, você inevitavelmente deixará o Estado de Fluxo.

No exemplo da negociação do contrato, caso ao final da negociação o cliente ainda alegue que precisa de um tempo para pensar, e que retomará o contato em alguns dias, a decisão foge ao seu controle e nesse momento o Estado de Fluxo se encerra.

Elemento de Risco

Por último, mas não menos importante, os elementos de risco fazem toda a diferença quando queremos entrar em fluxo.

Você provavelmente não entrará em fluxo enquanto treina para uma apresentação, ou venda. Contudo, quando estiver com uma plateia, ou com um cliente à sua frente, o risco de não se expressar corretamente, ou o risco de não fechar o seu contrato, proporcionarão os elementos necessários para entrar em Estado de Fluxo com muito mais facilidade.

 

Componentes Essenciais do Estado de Fluxo – Grupo

Todos os componentes citados acima são também fundamentais para entrarmos em fluxo dentro de um grupo. Afinal de contas, se não temos a base de componentes para entrar em fluxo sozinhos, como cada um dos participantes fariam para entrar em fluxo coletivamente?

Ainda assim, alguns outros componentes também precisam ser citados quando consideramos o grupo.

Participação Igualitária

O primeiro componente essencial para entrarmos em fluxo em um grupo é que estejamos participando ativamente das tarefas ou discussões. Caso você não esteja participando como os demais integrantes, você não se sentirá tão engajado com a tarefa, fazendo com que não desenvolva o Estado de Fluxo.

Dessa forma, é crucial que todos participem de forma igualitária, e que haja espaço para que todos continuem interagindo. Por esse motivo, são recomendados grupos de apenas 2-5 integrantes, de forma que todos possam permanecer participando a todo tempo.

Familiaridade

Como uma extensão da participação igualitária, é importante que todos os membros da equipe estejam falando uma mesma língua. Eu digo isso tanto em um sentido literal, como em um sentido mais abstrato, onde os integrantes possuem uma mesma base de conhecimento, e uma base de comunicação que vai além daquilo que está sendo dito.

O entendimento de alguns componentes de Programação Neurolinguística (PNL) podem ajudar muito nessa situação, pela criação de um maior rapport entre os diferentes integrantes da equipe.

Escuta Ativa

O Estado de Fluxo apenas aparece quando todos os integrantes do grupo estão a todo tempo engajados com a tarefa. Isso não ocorre quando um dos participantes “se afasta” da discussão para preconceber ideias de como a meta deveria ser alcançada. Portanto, quando estiver na discussão, pergunte-se “Eu estou atento ao que está sendo dito, ou estou apenas esperando minha vez de falar? ”

Essa é uma ferramenta poderosa, já que a partir de sua utilização, todas as vezes que você falar, estará soltando ideias sem muito planejamento, o que promove um enorme e constante fluxo de ideias para todos os participantes.

Diversidade de Egos

Como uma extensão da escuta ativa, a diversidade de egos é importante para que ideias que diferem das suas estejam sempre sendo jogadas na discussão. Caso todos os participantes pensem da mesma forma, e concordem sobre o que deve ser feito, o processo criativo se encerra, e as ideias começam a ser julgadas para implementação.

Dessa forma, caso queira manter o Estado de Fluxo e uma comunicação constante, busque sempre utilizar os pontos que você concorda na discussão, já que isso favorece o processo criativo e a vinda de novas ideias. Assim, integrantes do grupo não sentirão que suas ideias estão sendo constantemente julgadas e que devem parar para pensar um pouco mais sobre o que vão falar.

 

V. Considerações Finais

O Estado de Fluxo é um dos melhores estados mentais que podemos entrar quando estamos procurando excelência em qualquer área, seja ela artística, atlética ou empresarial.

Para nos tornarmos os melhores naquilo que fazemos, precisamos utilizar da melhor forma possível todos os recursos que nosso corpo e mente nos proporcionam, sendo justamente isso que o Estado de Fluxo nos fornece. Portanto, procure incorporá-lo no seu estilo de vida. Coloque em uso todo o potencial que você tem e torne-se o melhor naquilo que almeja!

O que você acha? Compartilha das ideias defendidas no artigo? Deixe nos comentários a sua opinião. Esse é um tema que eu adoro, e que terei o maior prazer discutir com você.

 

Referências:

Livros:

Vídeos:

Artigos:

About Leonardo Puchetti Polak

Especialista em Produtividade Pessoal, apaixonado por alta performance, tecnologia e neurociência.

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6 Respostas para “Estado de Fluxo: O Guia Científico de Como Atingir e Permanecer em Alta Performance

  • Show! Talvez tenha entrado em estado de fluxo lendo seu artigo rsss. Parabéns!

  • Parabéns pelo texto. Venho lendo sobre o assunto e encontrei no seu artigo muitas relações com o que tenho lido. Está bem completo!

    • Olá Marcelo,
      Fico feliz que tenha gostado. Esse é um dos temas que eu mais gosto no âmbito da Produtividade Pessoal, e justamente por isso vi a necessidade de fazer um artigo bem completo.

      Forte abraço,
      Leonardo

  • Karoline Polato
    6 meses ago

    Olá,

    Leio todos os seus posts pelo feedly, hoje tive que vir aqui comentar.

    Conheci e me interessei pelo estado de fluxo, busquei vídeos e artigos, até o momento não tinha encontrado nada tão esclarecedor como o seu post.

    Parabéns pela clareza e por se dedicar a trazer conteúdo relevante, sempre.

    Abraço

    Karoline

    • Olá Kariline,
      Muito obrigado! É ótimo saber que o texto conseguiu te ajudar =)
      Eu busquei trazer um conteúdo bem completo, ainda mais porque é um tema que eu adoro estudar e aplicar.

      Abraço,
      Leonardo