Equilíbrio Entre Vida Pessoal e Profissional: Como Gerenciar seus Conflitos em um Mundo Cada Vez Mais Conectado

Equilíbrio Vida e Trabalho

Nas últimas décadas, jornalistas, escritores, palestrantes e executivos têm falado muito a respeito da importância de levarmos uma vida flexível e equilibrada.

Entretanto, em um mundo cada vez mais conectado, está cada vez mais difícil separarmos nossas responsabilidades pessoais das profissionais, fazendo com que esses conselhos pareçam cada vez mais distantes da realidade.

Já se foram os dias em que podíamos chegar em casa e nos desligarmos totalmente do trabalho. Vivemos conectados 24 horas por dia, nos 7 dias da semana. Sua empresa não para quando você sai do escritório, e nem mesmo quando você tira férias.

Dessa forma, eu te pergunto: O que está passando despercebido aos olhos dos especialistas? O que devemos então chamar de equilíbrio entre vida pessoal e profissional? Por que está tão difícil equilibrar nosso trabalho com nossa vida pessoal?

Essas e outras perguntas são respondidas ao longo desse texto. Se preferir, você pode clicar nos links abaixo para ir direto a uma seção particular do artigo que te interessa, ou pode simplesmente continuar a leitura para ver o artigo completo.

 

I. Introdução

O Homem Aranha e o Traje Negro

Peter Parker estava exausto novamente.

Ultimamente, ele estava exausto o tempo todo. Enquanto que lutar contra o crime podia ser uma tarefa que drenava as suas energias, seus superpoderes de Homem Aranha sempre o haviam protegido contra exaustão. Mas alguma coisa estava diferente agora…

Em suas aventuras como Homem Aranha, Parker havia encontrado um novo traje. Ao invés da clássica veste azul e vermelha, essa era preta e branca. Não apenas ela parecia mais elegante, mas também aumentava seus poderes.

O novo vestuário podia simular qualquer tipo de roupa, facilitando que sua identidade fosse mantida em segredo. Além disso, suas teias estavam mais fortes, facilitando ainda mais o combate contra o crime.

Contudo, desde o momento em que ele havia colocado seu novo traje, se sentia cansado. Claramente, não podia ser sua nova veste, afinal de contas, era apenas um tecido sobre o seu corpo. Até uma noite em que Parker tirou suas roupas e “desmaiou” na sua cama, dormindo rapidamente.

Então, o seu traje se moveu. Ele rastejou novamente até seu corpo, e o cobriu por completo. Parker se levantou, e saiu pela janela, se balançando teia a teia, ainda dormindo.

No dia seguinte, Parker acordou ainda cansado e sem entender o porquê. Ele foi então procurar a ajuda do cientista Reed Richards, que fez alguns testes e chegou a uma conclusão não muito boa.

O traje não era apenas um simples vestuário, mas estava vivo. Biologicamente, ele se comportava como um simbionte, beirando o parasitismo. O traje era inteligente, e possuía seus próprios motivos e inspirações. Pior do que isso, ele estava tentando se fundir com Parker, fazendo com que se tornassem um só.

Dessa forma, o traje não viveria para servi-lo, mas sim Parker se tornaria o seu mais novo escravo.

 

Você Vive Como o Homem Aranha?

Bom, eu sei o que alguns de vocês estão pensando: Por que esse cara está falando de um traje de super-herói? Bom, peço que deixe-me explicar.

Quando você conseguiu seu emprego pela primeira vez, você sentiu que essa seria uma ótima oportunidade? Ele te ofereceu um ótimo salário e benefícios que pareciam enormemente vantajosos?

Porém, com o passar dos dias, você percebeu que esse mesmo trabalho que era tão empolgante no começo estava tirando suas energias? Percebeu que você estava se sentindo cansado todos os dias? Percebeu que estava trabalhando além do expediente, quando supostamente deveria estar descansando?

Você se sentiu como se estivesse se tornando uma parte do seu trabalho, ao invés de ele se tornar uma parte de você? Por acaso você se viu lutando para manter a sua independência, mas não consegue se distanciar, mesmo tentando muito?

Pois é, então eu serei o seu Dr. Reed Richards aqui: Talvez você não tenha um emprego. Talvez você tenha um simbionte com você. E agora, seja você o Homem Aranha ou a Mulher Aranha, você precisa aprender como lutar contra isso!

Mas antes, vamos entender mais a fundo como o desequilíbrio entre vida pessoal e profissional se tornou um problema nas nossas vidas.

 

II. Por que está tão difícil equilibrar a vida pessoal e profissional?

Equilíbrio entre Vida Pessoal e Profissional: A Origem

Historicamente, o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional é até mesmo um privilégio novo de se considerar. Por milhares de anos, trabalhar e viver eram praticamente a mesma coisa. Se você não trabalhasse – caçando, cultivando grãos ou criando animais – você provavelmente não viveria por muito tempo.

Mas as coisas mudaram! Conforme novas tecnologias foram surgindo, principalmente na agricultura, o excedente de comida permitiu maior liberdade quanto a escolha de um emprego, permitindo o aparecimento de estudiosos e artesãos. Enquanto que algumas pessoas trabalhavam para colocar comida na mesa, outras pessoas trabalhavam fazendo a mesa.

Nesse início, as pessoas ainda trabalhavam conforme suas necessidades e ambições. Um ferreiro, por exemplo, não precisava trabalhar até às 17 ou 18h. Ele podia ir para casa assim que terminasse de fazer a ferradura do cavalo.

Então, no século 19, a revolução industrial fez com que pela primeira vez na história um grande número de empregados pertencesse a uma mesma empresa. Surgem daí os chefes mandões, trabalho o ano todo e industrias que não param de produzir nem mesmo a noite.

Consequentemente, no século 20 presenciamos o surgimento dos primeiros movimentos para proteger os funcionários e limitar as horas de trabalho. Ainda assim, não foi até a metade dos anos 80 que vimos pela primeira vez o surgimento do termo “equilíbrio entre vida pessoal e profissional”, quando mulheres casadas começaram a fazer parte da força de trabalho.

Em poucos anos, famílias onde o homem trazia o sustento e a mulher cuidava da casa passaram a ter duas pessoas que traziam o sustento e ninguém cuidando da casa. Então, não é precisa ser um gênio para perceber quem ficou o trabalho extra e precisou aprender a balancear sua vida pessoal com a profissional.

 

O Grande Problema do Século XXI

Mais ou menos na metade dos anos 90, os homens também começaram a sofrer com o desiquilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Isso é, de acordo com uma pesquisa realizada pela LexisNevis, com os 100 jornais e revistas mais famosos no mundo, houve um aumento drástico no número de artigos relacionados a esse tópico.

Se entre 1986 e 1996 foram publicados apenas 32 artigos sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional, apenas em 2007 foram publicados 1.674 artigos (ver gráfico abaixo).

Equilíbrio Vida Pessoal e Profissional - Artigos Publicados

Esse aumento, sem dúvida, reflete os pensamentos e ambições de diversos profissionais por todo o globo. Isso porque conforme outra pesquisa, agora feita pela Harvard Business School, aproximadamente 62% dos profissionais de hoje em dia relatam trabalhar mais de 50 horas por semana e mais da metade disso disseram que trabalhavam mais de 60 horas por semana.

Não só isso, na cultura japonesa, por exemplo, não é inédito ouvir relatos de pessoas que morreram de tanto trabalhar! O problema tem se tornado tão prevalente que até mesmo já existe uma palavra japonesa para descrevê-lo: karoshi.

Longe de uma mera curiosidade, o termo foi adicionado ao dicionário japonês em 2002, e é um problema legalmente reconhecido, com índices rastreados desde 1987. Basicamente, o número de pessoas morrendo por karoshi no Japão é equivalente ao número de mortos relacionados a acidentes de trânsito.

As mortes estão comumente relacionadas a ataques cardíacos ou acidentes vasculares encefálicos, mas não são raros os casos de suicídio. Quando questionados, mais de 90% da força de trabalho japonesa nunca ouviu falar sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Para conter o problema, algumas empresa e escritórios estão tendo que tocar uma mensagem no final do dia de trabalho, basicamente dizendo para seus funcionários “VÁ PARA CASA!”

 

Por que está tão difícil equilibrar a vida pessoal e profissional?

Bom, ao meu ver existem três grandes motivos que dificultam ainda mais o combate esse problema, impedindo que as pessoas equilibrem sua vida pessoal com a profissional. São eles:

  • Os limites entre a família e o trabalho estão difíceis de enxergar.

As demandas no trabalho estão cada vez maiores, já que os negócios nunca dormem e companhias estão sempre tentando fazer mais com menos recursos. Com isso, as responsabilidades profissionais de cada pessoa só aumentam, e na maioria das vezes acompanhada da sensação de que nunca estamos fazendo o suficiente.

Começamos a levar nosso trabalho para casa, e quando nos damos conta, não sabermos definir quando estamos ou não trabalhando. Para complicar ainda mais, a tecnologia nos permite enviar mensagens pessoas ou profissionais a qualquer momento, sendo que para isso utilizamos os mesmos equipamentos.

Em um estudo feito pela Association for Women in Science (AWIS), mais de 50% dos trabalhadores encontram conflitos entre as responsabilidades pessoais e profissionais pelo menos duas ou três vezes na semana. Por esse motivo, cerca de 40% das mulheres resolvem até mesmo atrasar a sua gravidez.

 

  • Funcionários estão dispostos a ceder parte do seu tempo pessoal para o trabalho e alguns pensam que nem possuem escolha.

Em um estudo realizado pelo TeamViewer e pela Harris Interactive, os pesquisadores encontraram que 61% dos funcionários estavam dispostos a trabalhar durante suas férias. Já em um outro estudo realizado pela Gyro e pela Forbes Insights, eles encontraram que 97% dos executivos checam e-mails durante seu tempo de descanso e 63% checam seus e-mails a cada uma ou duas horas durante esse período.

É bem verdade que existem pessoas que são genuinamente apaixonadas pelo próprio trabalho, e, portanto, não ligam de trabalhar no seu período de descanso. Entretanto, eu acho difícil de acreditar que a maior parte das pessoas seja assim.

Para que 61% dos funcionários estejam dispostos a trabalhar nas férias, e 97% dos executivos estejam constantemente checando seus e-mails, é muito provável que essas pessoas não sintam que possuem poder de escolha entre trabalhar ou descansar.

Quando as demandas do dia a dia se tornam tão grandes que não conseguimos parar para refletir, é normal que não percebamos que ninguém pode retirar nossa possibilidade de escolha. Podemos apenas esquecer que ela existe.

 

  • Existem mais funcionários trabalhando remotamente do que jamais houve.

Uma das maiores tendências no mundo moderno é o crescimento de funcionários que trabalham remotamente, muitas vezes em casa, ou em espaços de coworking, apenas com o uso de tecnologias como o Skype, mídias sociais e Google Docs.

Trabalhar diretamente de casa oferece muitos benefícios, principalmente para os mais novos, porque podem trocar salários maiores pelo desejo de integrar com maior facilidade a vida pessoal e profissional.

No total, de acordo com uma pesquisa realizada pela agência de empregos Catho, 37,2% dos brasileiros já trabalham ou trabalharam remotamente em algum momento.

Além disso, uma outra pesquisa, agora realizada pela Robert Half, no ano de 2012 a 2015, cerca de 44% dos diretores de Recursos Humanas (RH) do Brasil ampliaram o uso do trabalho remoto.  Para 75% dos diretores entrevistados, a “concessão de maior autonomia aos colaboradores, por meio de flexibilidade de horário, trabalho remoto ou menos supervisão direta, se reflete no aumento da produtividade por parte dos colaboradores”.

Basicamente, o que esses números mostram é que milhões de brasileiros estão hoje trabalhando de acordo com as suas próprias preferências, podendo trabalhar até mesmo na sua própria cama.

Quando isso acontece, fica realmente difícil separar o trabalho da sua vida pessoal e, portanto, começamos a nos questionar se realmente é possível encontrarmos um ponto de equilíbrio entre essas duas áreas.

 

III. Os Impactos de Trabalhar Tanto

Embora esteja cada vez mais difícil entendermos como podemos balancear nossas vidas pessoais e profissionais, o que está mais claro e fácil de entender é o impacto que trabalhar demais possui sobre o nosso bem-estar físico e mental.

Você provavelmente já sabe que quando trabalhamos demais, fica mais difícil encontrarmos um horário para ir para a academia, ou para preparar uma refeição mais saudável. Não só isso, mas tendemos a nos tornar mais estressados, esgotados e até mesmo deprimidos.

Contudo, o que você talvez não saiba é que trabalhar demais pode influenciar negativamente sua forma de pensar e ver o mundo, tornando você uma pessoa mais negativa e cínica.

Para melhor ilustrar isso, deixe-me contar a história de uma jovem chamada Katie…

 

Conheça Katie

Logo que começou a fazer sua residência médica, Katie viu seu mundo virar de ponta cabeça. Seu cronograma basicamente consistia em chegar todos os dias ao hospital as 5h30 ou 6h, e muitas vezes trabalhar até 1 hora da manhã, para então voltar a acordar cedo no dia seguinte.

Tendo apenas um dia de descanso durante a semana, ela estava trabalhando cerca de 80h semanais! Dessa forma, conforme seu cronograma apertava, ela se tornou cada vez mais obcecada por não desperdiçar um único momento do seu dia.

Isso é, quando chegava em casa, mesmo após trabalhar cerca de 15 horas naquele dia, ela se preparava para ir até a academia, fazia exercícios por 30 minutos, e então voltava para casa, onde ficava estudando até cair no sono. Trabalho, exercício físico e estudo eram as únicas prioridades de Katie naquele momento.

Contudo, conforme você pode imagina, enquanto focava apenas nessas tarefas, Katie começou a perder a noção de outras tarefas também importantes, que faziam parte da sua vida.

Por exemplo, sua casa estava uma bagunça, já que desde que se mudara, ela ainda não havia desempacotado suas coisas. Além disso, suas roupas sujas começaram a se acumular, e algumas contas simplesmente não foram pagas por esquecimento.

Como se isso não fosse suficiente, Katie havia lutado contra a anorexia durante sua juventude, e sabia que precisava se manter vigilante sobre o que estava comendo. Ainda assim, ela lentamente foi retomando alguns maus hábitos. Ela começou a pular refeições, e em algumas delas comia apenas uma barra de cereal ou uma fruta.

Ninguém entende melhor que um médico o papel da nutrição na sua saúde, ainda assim, apesar de todo o seu treinamento médico, Katie não estava cuidando da sua saúde.

 

O Experimento de Minnesota

Por que Katie estava cometendo tantos erros? É fácil dizer que ela estava sendo irresponsável. Mas eis o problema: ela sempre foi uma pessoa cautelosa e consciente. É possível que exista alguma outra coisa fazendo com que ela mude o seu comportamento?

Para entender isso, eu preciso te levar para uma época completamente diferente, já que nela existem informações importante sobre a história de Katie.

Em 1944, a Segunda Guerra Mundial se aproximava do fim, e oito trabalhadores buscavam desesperadamente entender como poderiam ajudar pessoas que estavam quase morrendo de fome.

Pesquisadores da Universidade de Minnesota achavam que podiam ajudar, então eles lançaram um experimento. Eles recrutaram 36 voluntários, sendo todos completos opositores da guerra, e querendo ajudar aqueles que estavam sofrendo. O experimento: todos os voluntários precisavam ficar praticamente sem comer por 24 semanas.

Ao longo dos dias, cada um dos voluntários emagreceu cada vez mais, fazendo com que parecessem espantalhos vivos. Alguns ficaram tão magros que nem mesmo podiam se sentar sem a ajuda de almofadas, ou não conseguiam levantar os braços para lavar os cabelos.

Equilíbrio Vida Pessoal e Profissional - Experimento de Minesota

Voluntários Gerald Wilsnack, Marshall Sutton e Jasper Garner

Os resultados do experimento foram eventualmente publicados, e permanecem até hoje como uma importante referência acadêmica no que se refere a nutrição, fome e distúrbios alimentares.

Mas recentemente, dois cientistas chamados Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir ficaram interessados nesse estudo por motivos não ligados a nutrição. Eles não estavam interessados no que a dieta causa para o corpo, mas sim no que causa para a mente.

Os pesquisadores tinham uma teoria interessante: quando algo está faltando na sua vida, o seu cérebro começa a focar naquilo intensivamente. Quando você está realmente desesperado por alguma coisa, você pode focar nisso de maneira tão obsessiva que não existe lugar para qualquer outra coisa na sua vida.

 

A Mente em Escassez

Mullainathan e Shafiir estavam apenas considerando a sua hipótese quando um colega recomendou que lessem sobre o experimento de Minnesota. Ambos ficaram fascinados com o experimento, e sobre como a falta de comida afetava as mentes dos voluntários.

Basicamente, ao longo do experimento inicial, os voluntários estavam famintos e não conseguiam parar de pensar em comida. Suas conversas sempre envolviam alguma comida, as revistas que estavam lendo possuíam diferentes receitas, e alguns deles passavam horas planejando abrir restaurantes.

Em um ponto do experimento, os pesquisadores até mesmo sentiram pena dos voluntários e resolveram distraí-los com um filme. Eles não se interessaram pelas cenas de sexo do filme, mas sim pelas refeições.

A escassez de comida fazia com que os voluntários só conseguissem pensar nisso. De uma perspectiva evolutiva, isso faz todo o sentido. Se você estivesse vivendo na pré-história, e seu corpo realmente precisasse de comida, faria sentido que ele disparasse um alarme dentro de você que fizesse com que você não parasse de pensar nisso.

Conforme Mullainathan e Shafiir se debruçavam mais e mais sobre o assunto, eles começaram a se questionar sobre como esse mesmo mecanismo funciona para outros tipos de escassez.

Pode ser que a escassez de dinheiro faça as pessoas pensarem de forma diferente? Será que escassez de tempo faz com que as pessoas pensem mais no curto prazo, em comparação ao longo prazo?

A resposta é sim! Hoje, diversos experimentos corroboram a hipótese inicial de que a escassez de dinheiro e de tempo alteram completamente nossa forma de pensar. Basicamente, ao ficar obcecado, a procura do que está faltando, o cérebro utiliza todos os seus recursos, perdendo assim a capacidade de refletir sobre quais outras coisas também são importantes para você.

 

A Armadilha da Escassez

Essa linha de raciocínio nos fornece uma ideia do porquê as pessoas com escassez de algum recurso tendem agir de maneira muitas vezes estúpida ou irracional.

Pessoas que estão passando dificuldade financeira tendem a focar demais nos itens que estão faltando no momento, e esquecem de planejar seus gastos mensais, atrasando assim a fatura do cartão de crédito.

Pessoas que se sentem muito sozinhas (escassez de amigos) tendem a focar demais nas impressões que estão deixando nas outras pessoas, e esquecem de prestar atenção na conversa que estão tendo, fazendo com que parecem esquisitas.

Pessoas que se tornam obcecadas pelo tempo focam demais na otimização de cada minuto do seu dia, e não param para ter uma visão panorâmica de como está a sua vida, e quais são os seus objetivos para o futuro.

Hoje, já existe até mesmo um nome técnico para isso: largura de banda. Se você está baixando um filme na sua rede de internet, você pode notar que fica mais demorado abrir o seu e-mail. Isso porque o filme está utilizando quase toda a sua largura da sua banda. Mullainathan defende que nossa mente funciona exatamente da mesma forma.

Se a sua mente está consumida com pensamentos a respeito de uma coisa, não existe espaço para pensar em qualquer outra coisa. Da mesma forma que no experimento de Minnesota, sua mente dispara em você um alarme, que permanece apitando dentro da sua cabeça até que você resolva o problema.

Escassez, em outras palavras, preenche a sua mente com pensamentos intrusivos a respeito do que você não tem, não deixando espaço para o que realmente importa.

 

O Desfecho de Katie

Ao longo dos dias, enquanto Katie batalhava para manter cada minuto do seu dia produtivo, ela não tinha tempo para refletir sobre o longo prazo. A escassez de tempo fazia com que ela cada vez mais focasse no seu trabalho, deixando de lado seus afazeres pessoais.

Trabalhar demais, em outras palavras, estava roubando Katie da capacidade de discernir sobre o certo e o errado. Discernir sobre como a sua própria mente está mudando. Àquela altura, ela não tinha noção de que estava indo por um caminho perigoso. Infelizmente, o problema apenas se tornou obvio quando começou a finalmente afetar o seu trabalho.

Um dia, ela admitiu um paciente diabético no hospital, mas quase se esqueceu de administrar insulina ao paciente. Talvez você não saiba, mas caso você não administre insulina para um paciente diabético, especialmente se ele possui diabetes tipo I, então ele pode até mesmo morrer de acidose no hospital.

Eventualmente, Katie precisou ser hospitalizada. Naquele momento, ela precisa de duas coisas: 1) cuidar da sua nutrição; 2) aprender como parar os pensamentos intrusivos para melhorar a utilização do seu tempo.

Isso é, a mente de Katie estava abarrotada com pensamentos raivosos e impacientes. Quando não estava fazendo algo produtivo, ela se sentia uma inútil, completamente sem propósito de vida. Dessa forma, para sua salvação, enquanto estava hospitalizada ela foi forçada a passar o dia sem fazer nada, e gradualmente a sua mente começou a se recuperar.

Hoje recuperada, ela percebe em retrospectiva que ao trabalhar demais, ela estava ignorando outras coisas simples, também necessárias para o seu sucesso. Não por escolha, mas porque essa parecia sua única opção. Momentos de relaxamento, assistir um filme, ler um livro por prazer. Atividades que podem parecer improdutivas, mas que são essenciais para o sucesso.

 

IV. Como Encontrar o Ponto de Equilíbrio entre Vida Pessoal e Profissional?

Bom, agora que você já entende quais são os fatores que mais favorecem o desequilíbrio entre vida pessoal e profissional, e já entende os impactos de trabalhar demais, chegou então a hora de partir para a prática e entendermos como podemos integrar nosso trabalho com nossos outros afazeres.

Ao meu ver, a resolução do problema é relativamente simples, mas não necessariamente fácil de ser feita. Isso porque, na minha opinião, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional está puramente relacionado às conversas que temos – ou evitamos ter – sobre o que está acontecendo nas nossas vidas, e sobre como nos sentimos sobre aquilo que realmente impacta nosso dia a dia.

A maior parte dos problemas que atribuímos ao “desequilíbrio” entre o trabalho e a casa poderiam ser resolvidos com conversas, especialmente conversas autênticas, aqueles que você REALMENTE fala o que quer dizer, com nossos gerentes, parceiros de negócios, clientes, amigos, marido/esposas, filhos, e ainda mais importante – com nós mesmos.

É possível que em 99% dos casos, as conversas que não estamos tendo sejam os gatilhos que estão causando o desequilíbrio nas nossas vidas.

Esses gatilhos geralmente se resumem aos diferentes valores e limites (ou a falta de limites) que apoiam e honram o que queremos em todos os nossos relacionamentos, sejam esses os relacionamentos com nosso trabalho, ou pessoas dentro e fora do trabalho ou ainda com nós mesmos.

Uma vez que você entenda isso, existem algumas ferramentas que podem ser extremamente úteis durante o processo. São elas:

 

Estratégia 1: Programe o seu Trabalho

Em seu livro Deep Work, o autor Cal Newport defende que as pessoas não deveriam utilizar listas de afazeres, mas sim programar todas as suas tarefas de acordo com um cronograma.

Isso porque listas de afazeres não levam em consideração a utilização do seu tempo. Isso é, alguma vez você refletiu sobre por que você nunca consegue chegar até o final da sua lista de tarefas? Isso acontece porque você pode facilmente listar 28 horas de atividades, tendo um dia com apenas 24 horas.

Você precisa ser mais realista com relação ao que você pode e não pode fazer no seu dia. A melhor forma de fazer isso é priorizando, planejando e montando um cronograma eficiente. E um cronograma eficiente leva em consideração que você está agendando seu trabalho e não suas distrações.

Grande parte das pessoas utiliza o calendário para agendar reuniões, telefonemas e consultas no médico. Mas você sabe o que não está sendo agendado? Trabalho de verdade, aquele que realmente contribui para os seus lucros, que faz você ser reconhecido, que impacta o seu mercado. Todo o resto é distração.

Dessa forma, caso você ainda não tenha ideia de como pode montar um cronograma eficiente, eu aconselho que leia o artigo “Método DRD: Organizando sua Agenda de Forma Simples e Efetiva”. Nele, eu explico em detalhes os 3 passos necessários para organizar a sua semana, através de um cronograma que realmente funciona.

 

Estratégia 2: Decida a que horas vai parar de trabalhar

Como segunda estratégia, defina a que horas você vai sair do escritório, e que horas vai parar de responder e-mails. Dessa forma, você terá uma noção melhor de quantas horas tem para trabalhar, otimizando assim o seu cronograma.

Isso é, ao colocar o prazo de sair do escritório ás 18h, você se torna mais realista sobre o que pode e não pode ser feito no dia, recuperando o controle das suas atividades, ao invés de ficado chocado no final do dia por não finalizado tudo o que pretendia.

Basicamente, o que você precisa é impor limites para que realmente consiga balancear sua vida pessoal e profissional. Dessa forma, nada mais justo do que separá-los com uma linha de tempo.

Para melhorar ainda mais o processo, é recomendado também que você crie uma rotina de desligamento do seu trabalho. Por exemplo, de acordo com o pesquisador Daniel Levitin, quando você fica preocupado com alguma coisa, ou seu cérebro tem medo que você esqueça de algo, ele começa a repetir as mesmas informações na sua cabeça, de maneira similar ao princípio da escassez discutido acima.

Isso faz com que você permaneça cada vez mais preocupado. Dessa forma, escrever quais são as suas tarefas para o dia seguinte, ou montar um cronograma sobre o que será feito no dia seguinte é uma ótima forma de acabar o dia.

Se preferir, sua rotina de desligamento pode influir algum tempo de inatividade. Você se lembra do exemplo da Katie? Para se recuperar, ele precisou incluir no seu cronograma atividades de relaxamento, que primeiramente soavam como tarefas improdutivas, mas que contribuíam muito para o seu sucesso.

Então, quais são algumas atividades que te ajudariam a desestressar no final do expediente? Programe-se para executar essas atividades por pelo menos 5 minutos antes de sair do escritório.

 

Estratégia 3: Controle o seu Ambiente – e se necessário se esconda!

O ambiente em que você trabalha importa. Até mais do que você imagina. Ele influencia as suas decisões, até mesmo quando você não percebe.

Não acredita? Então recomendo a leitura do artigo “Gatilhos Mentais: O Enorme Impacto do Ambiente sobre a sua Produtividade”. Nele, eu explico detalhadamente como as pistas ambientas que você recebe interferem na sua linha de raciocínio, mesmo que inconscientemente.

Distrações literalmente nos deixam burros. Estudantes com salas de aula próximas a uma linha ferroviária barulhenta acabam tendo desenvolvimento acadêmico retardado, muitas vezes um ano inteiro atrás de estudantes com salas de aula quietas. E quando o barulho é retirado, a diferença em performance desaparece.

O mesmo acontece em escritórios. Pesquisas mostram que os programadores mais eficientes não são aqueles com melhores salários, ou horas de experiência. São aqueles cujos empregadores fornecem um ambiente livre de distrações.

Obviamente, eu sei que não são todos que podem controlar os ambientes que trabalham ou frequentam, ainda assim, eu posso afirmar que temos muito mais controle do que geralmente acreditamos.

É justamente por isso que eu recomendo uma solução simples, para ao menos uma parte do seu dia: se esconda! Reserve uma sala de reuniões e trabalhe de lá. Trabalhe um pouco em casa, e chegue mais tarde ao escritório. Trabalhe de uma cafeteria, ou de um restaurante. Não apenas isso permitirá que você diminua as distrações, como também manterá sua mente mais criativa.

 

Estratégia 4: Fale com seu patrão – ou com seus funcionários!

Eu sei que algumas pessoas vão falar que não possuem a capacidade de fazer grandes mudanças. Seus chefes não vão deixar.

Contudo, se você realmente deseja melhorar o seu equilíbrio entre vida pessoal e profissional, é melhor que pare de fazer suposições. Sente-se com o seu patrão e realmente discuta o assunto.

Não, você não precisa falar “Oi, eu estou pensando em trabalhar menos”. O que você precisa fazer é pedir ao seu chefe por uma descrição clara do seu papel, e das suas expectativas. Ou seja, o dialogo seria muito mais como: “Se eu mudar isso ou aquilo, então teremos um problema?”.

Você provavelmente vai se surpreender com a resposta, principalmente se você pensar também nas necessidades dele e tentar fazer um acordo ganha-ganha.

 

Estratégia 5: Os Equilíbrio dos 3 Potes

Como quinta e última estratégia, falaremos do equilíbrio dos 3 potes, defendido no livro “How to Live a Good Life”, de Jonathan Fields.

Para começar a estratégia, vá até o mercado, e compre 3 potes grandes e de igual tamanho. Volte para casa, e nomeie cada um dos potes: Vitalidade, Conexão ou Contribuição.

Vitalidade: Todas as vezes que você fizer algo que ajude na sua saúde física ou mental, escreva em um pedaço de papel, e coloque dentro do pote. Saiu para uma caminhada? Meditou? Fez uma refeição saudável? Uma massagem? Escreva em um papel, e coloque no pote correspondente.

Conexão: Todas as vezes que você fizer algo que te mantenha próximo das pessoas que você gosta ou ama, então escreva em pedaço de papel, e coloque dentro do pote. Levou seu parceiro(a) para um jantar? Jogou videogame com seu filho? Preparou uma refeição para toda a família? Ligou para um velho amigo?  Escreva em um papel, e coloque no pote correspondente.

Contribuição: Todas as vezes que você fizer algo que contribua de alguma forma para o mundo, então escreva em um papel e coloque dentro do pote. Ajudou um parceiro a fazer um bom negócio? Realizou trabalho voluntário no fim de semana? Ajudou seu cliente em uma transformação? Escreva em um papel, e coloque no pote correspondente.

O seu intuito com essa estratégia é simples: ter aproximadamente o mesmo número de papéis colocados em cada pote. Assim, você conseguirá visualizar com maior facilidade como está equilibrando seu trabalho e sua vida dia a dia, permitindo assim que você faça os ajustes necessários.

 

V. Considerações Finais

Equilíbrio entre a vida pessoal e profissional não está relacionado apenas a uma definição, mas a uma forma de pensar. O equilíbrio começa quando cada um de nós analisa a própria vida e percebe que:

  • É sua a escolha de definir o que equilíbrio significa ou não significa para você;
  • É sua a escolha de autenticamente expressar as suas verdades e os seus limites;
  • É sua a escolha de aceitar como e quando ocorrerão momentos de “desequilíbrio” na sua vida, onde seu foco estará mais no seu trabalho, ou na vida pessoal.

Apenas ao fazemos um auto inventário das escolhas que estamos fazendo, do estilo de trabalho que mais gostamos, e dos tipos de comportamento que julgamos estarem alinhados ou não com o que chamamos de “equilíbrio”, é que podemos nos livrar dos paradigmas do mundo moderno, e então realizamos nossas tarefas no nosso mais alto calibre.

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Referências

Livros:

 

Podcasts:

 

Artigos:

About Leonardo Puchetti Polak

Especialista em Produtividade Pessoal, apaixonado por alta performance, tecnologia e neurociência.

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